O kichute e a bola
O primeiro contato com a bola, eu ainda não tinha um kichute. Naquele tempo, só havia sandália e conga. Estou falando daquela vermelha com borracha amarelada no solado. A bola era G 18, couro duro, e quando chovia parecia um chumbo. Às vezes ficava pensando, como aqueles adultos conseguiam chutar aquilo. Uma vez, ainda na minha infância, fui assistir o meu pai jogar, “Zé Pretin”, jogador de Várzea. Lembro o que ele me disse: “Chuta pro papai”. Felizmente a bola rolou uns 50 centímetros, mas o meu pé, foi lá atrás. Fui ficando moleque, fominha de bola.
Num belo dia, ganhei o meu primeiro kichute, daí vieram às complicações. Devido à situação financeira dos meus pais, o meu primeiro kichute era apenas para ir as festas e a escola. Era muito engraçado aquele calçado, o cadarço era enorme e para ficar na moda, enrolava primeiro na canela para dar o nó. Toda molecada usava o kichute para os mesmos fins, como ele tinha um formato de chuteira, e ninguém naquela época tinha condições de comprar uma, usávamos o pisante para jogar bola. Já estava esquecendo, usava-o como chuteira escondido do Zé Pretin e Dona Lurdes.
Os campos eram de terra, areia e cascalho, e para aguentar tudo isso, somente o velho kichute, que era de lona revestida de borracha nas laterais e no solado. E pra não ficar com a canela russa, passava banha de porco, ficava tinindo, num brilho só. Depois de uma pelada, sempre tinha que lavar o meu companheiro de partida bem rápido, pois ele também me acompanhava as missas e festas com a família. Aos poucos, o kichute foi ficando cinzento, terra vermelha, cascalho e secagem em um sol de mais de 30 graus. Ai, virou chuteira mesmo. Foi então que a pelada ficou boa mesmo, não precisava lavar todo dia, podia até entrar firme na jogada sem medo de estragá-lo.
O tempo foi passando, e logo, ganhei outro kichute de presente, e junto com ele, a bronca dos meus pais. “É moleque, pra te agüentar só mesmo um kichute, é este tem que durar”. Os anos passaram, continuei jogando minha bolinha com o meu companheiro, até que um dia, não deu mais. Teve pelada que cheguei a jogar descalço, tempos bons. Foi então que um dia, minha saudosa Vó Maria me deu de presente um tênis de moda, o nome era kedes. Pra se ter uma idéia, quem tinha um kedes naquela época, era visto como uma pessoa de status. Coitado da minha vozinha, comprou parcelado, e tudo era muito difícil. Quando eu colocava o tênis, ouvia minha Vó dizer: “Cadê o cocota da vovó”. Era o jeito de falar que eu estava chique. Obrigado Vó.
Mas vamos voltar pro kichute, lembra do segundo que ganhei, não teve jeito, virou chuteira mesmo, mas com muito cuidado é claro, nunca esqueci das broncas do meu pai. Este eu preservei o máximo. Antes que eu me esqueça, como não queria levar bronca com a segunda geração do meu kichute, tive que usar o kedes para ir a escola. Lembro como se fosse hoje, de como era vidrado em bola, na hora do recreio e da educação física , futebol. E à tardinha era de peladas nos campinhos do Boa Vista. O meu kedes foi pro saco, fiquei com vergonha da minha vó, o cocota dela destruiu o tênis em dois meses. E lá vou eu levar outra bronca, desta vez da minha mãe: “como pode um menino acabar com um tênis assim, em dois meses”.
É, bom mesmo era o meu velho kichute que ainda estava lá, bom de pelada e em condições de ir as festas. Ah, você pensou em chinelos, nem usava, era um par por mês, meus pais desistiram de me da, durava pouco. Foi ai, que com o tempo o meu avô começou a fazer precatas para os netos, uma espécie de sandálias com fundo de pneu. Esse sim, durava anos.
Com o tempo vieram outros kichutes e outros kedes, mas de uma coisa eu tenho certeza, o velho kichute na minha infância foi um símbolo que na atualidade mostra o quanto gosto de futebol, eles se foram, mas o símbolo ficou e o meu gosto por futebol só aumentou. Salve, salve os kichuteiros da minha geração.
Reinaldo Andrade



